Os sistemas de transporte vertical – ascensores, plataformas elevatórias e monta-cargas – são infraestruturas essenciais para o funcionamento seguro e eficiente dos edifícios e infraestruturas e, cada vez mais, como forma de mobilidade suave. A sua presença é tão ubíqua que frequentemente se esquece a complexidade tecnológica que encerram e a responsabilidade técnica que implicam.
Sempre que falo de elevadores, gosto de relembrar o forte impacto social que tiveram aquando da sua massificação.
As cidades, em tempos parecidos com os atuais, precisavam de mais casas e começou-se a construir em altura, ficando para as classes mais desfavorecidas os apartamentos nos últimos pios. Com a invenção do elevador, esta definição de valor alterou-se. Ficando os últimos pisos para as classes sociais mais ricas, transformando os últimos pios em locais exclusivos e mais valorizados. Exemplo claro do impacto da engenharia e desenvolvimento tecnológico.
Mas, os elevadores são, pela sua natureza, equipamentos de uso intensivo e contínuo. Cada ciclo de operação envolve esforços mecânicos, vibrações, variações térmicas e solicitações elétricas que, cumulativamente, afetam o desempenho do sistema.
A manutenção preventiva, devidamente calendarizada e realizada por técnicos competentes, é o mecanismo que permite antecipar falhas, corrigir desvios de desempenho e assegurar a conformidade com as normas de segurança em vigor.
Infelizmente, subsistem práticas que reduzem a manutenção a um ato meramente formal, centrado na substituição de componentes avariados, em vez de uma estratégia contínua de monitorização, diagnóstico e prevenção. Esta visão minimalista desvirtua o princípio fundamental da segurança técnica e coloca em causa a confiança do público nos sistemas de transporte vertical.
A engenharia, em qualquer domínio, assume dois pilares fundamentais: competência técnica e responsabilidade ética. No caso dos elevadores, onde o erro pode ter consequências graves, a regulação do exercício profissional assume uma importância ainda maior.
É imperativo que as atividades de projeto, instalação, inspeção e manutenção sejam executadas por profissionais com formação e qualificações adequada, neste caso pela Ordem dos Engenheiros.
Quando se delega a manutenção de um sistema de transporte vertical a entidades sem enquadramento técnico ou supervisão profissional, está-se a fragilizar todo o ecossistema da segurança. A ausência de regulação gera espaços de impunidade técnica e degrada a confiança na engenharia como disciplina estruturante da sociedade moderna.
A regulação profissional deve coexistir com uma fiscalização pública eficaz, que garanta o cumprimento das obrigações legais e normativas. Compete às entidades inspetoras, aos organismos de controlo metrológico e às autoridades competentes assegurar que os contratos de manutenção são cumpridos e que as intervenções técnicas são devidamente registadas, auditáveis e transparentes.
Mais do que uma questão normativa, a segurança dos elevadores é uma questão de cultura técnica e de responsabilidade coletiva, onde o principal responsável será sempre o “proprietário” dos mecanismos, que deve ser o primeiro garante da exigência e qualificação técnica.
Proprietários, administradores de edifícios, empresas de manutenção e utentes devem compreender que o cumprimento rigoroso das normas de segurança não é uma formalidade burocrática. É uma salvaguarda de vidas humanas, não o mero centro de custos.
A engenharia, quando exercida com rigor e ética, traduz-se em confiança social. Cada elevador que funciona com segurança é o resultado direto de um sistema técnico bem regulado, de profissionais competentes e de uma estrutura institucional que valoriza o conhecimento.
A segurança dos sistemas de transporte vertical não se improvisa. Ela constrói-se através de manutenção preventiva qualificada, regulação profissional exigente e fiscalização contínua.
O papel das instituições, como a Ordem dos Engenheiros, é precisamente o de garantir que esses princípios não se diluem no tempo. Porque, no fim, cada viagem de elevador é um exemplo de confiança pública, não só da conceção dos mecanismos, mas também da sua manutenção, conservação, melhoria e atualização tecnológica.
Bento Aires,
Presidente do Conselho Diretivo da Região Norte da Ordem dos Engenheiros
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